
A Fábrica de Tecidos Santa Francisca
por
Eliana Tadeu Terci
A abolição da escravatura e a imigração europeia, solução adotada para a substituição de braços na lavoura, exerceram forte incremento ao mercado interno, dinamizando as atividades urbanas responsáveis pelo primeiro surto industrial de proporções consideráveis no Brasil. Surgia uma indústria que recebia o impulso direto (equipamentos agrícolas, máquinas de beneficiamento, têxtil para sacaria) e indireto da atividade cafeeira e se alimentava da demanda criada pela nova classe operária de origem europeia (indústria alimentícia, bebidas, beneficiamento de cereais, selarias, marcenarias).
O setor de serviços também recebia forte incremento, dotando as cidades de empreendimentos modernos, como os bancos, os armazéns de secos e molhados, as lojas de tecidos e as famosas confeitarias, empenhadas em recepcionar as famílias abastadas que pouco a pouco se estabeleciam nas capitais do estado e do país, a exemplo da Confeitaria Fasoli (1894-1940) e da Padaria Santa Tereza, a mais antiga em funcionamento na capital paulista, e ainda a glamorosa Confeitaria Colombo, aberta em 1894 no Rio de Janeiro.
A indústria têxtil foi uma das mais importantes, uma vez que servia tanto à demanda da atividade exportadora (sacaria) quanto ao consumo popular que dela demandava o riscado e o algodãozinho para roupas. Canabrava (1984) escreve que em 1866 havia nove fábricas de tecidos no Brasil, mas nenhuma situada na Província de São Paulo. As primeiras iniciativas não prosperaram. As dificuldades eram enormes, as receitas não cobriam sequer as despesas, “não obstante serem estas pequenas em razão da insignificância dos jornais dos operários”. Entre as principais dificuldades citavam-se as da matéria-prima, do capital e da mão de obra especializada.

Alunos da Escola Prática Agrícola “Luiz de Queiroz” na colheita de algodão, c. 1900–1925. Acervo Instituto Histórico e Geográfico de Piracicaba – IHGP.
Vale lembrar que a primeira metade da década de 1860 (1861-65) foi marcada pelo denominado “rush” do algodão: forte alta dos preços internacionais da matéria-prima em virtude da Guerra de Secessão estadunidense. Com o bloqueio dos portos do Sul dos EUA, a Inglaterra, principal consumidora de algodão, buscou novos fornecedores, de modo que a elevação dos preços estimulou a produção paulista. Foi apenas um “rush”, considerado um acontecimento anômalo, circunstancial, pelos grandes fazendeiros de café, tendo progredido apenas como “empreendimento de aventura”, segundo Canabrava. Ademais, seguia as vicissitudes do modelo tradicional da produção agrícola brasileira desde os tempos coloniais: práticas rotineiras e extensivas, ausência de assistência técnica e de financiamentos para aquisição de maquinário apropriado, o que inviabilizou aos produtores se ajustarem aos padrões impostos pelos mercados consumidores.
Assim, reestabelecida a paz, os produtores paulistas, sintonizados aos fatos e pressentindo a volta à normalidade dos preços, deixaram de fazer novas plantações, principalmente os grandes fazendeiros de café que haviam temporariamente se dedicado também ao algodão, motivados apenas pela alta dos preços, de modo que o ano de 1871 marca o ápice do ciclo algodoeiro, cujo volume exportado atinge 10.204,61 toneladas, declinando sucessivamente atingindo 643,07 t. apenas em 1877.
Curioso observar que a expansão da indústria têxtil na província de São Paulo coincida com o declínio do “rush” algodoeiro, no curto espaço de tempo de seis anos entre 1871 e 1875 quando se fundaram as primeiras fábricas “estáveis”:
Fábricas Têxteis Paulistas fundadas no século XIX
| Denominação/proprietários | Cidade | Ano de fundação | Origem do maquinário | Força motriz | Capacidade produtiva |
|---|---|---|---|---|---|
| Fábrica São Luiz/Barão de Piracicaba e Luiz Antonio Anhaia | Itu | 1871 | EUA (Lidgerwood) 62 máquinas e 24 teares | vapor | 800 a 1000 varas de “algodão grosso da terra” |
| Barão de Piracicaba e filho (Diogo Paes Barros) | Capital | 1871 (1874) | Inglaterra 50 teares | vapor | 2.400 m de algodão e 800kg de fio |
| — | Itu | 1873 | Inglaterra (Platt Brothers, Manchester ) 50 teares 18 cardas e 1600 fusos | hidráulica | |
| Fábrica Santo Antonio | S. Luiz de Paraitinga | 1874 | 25 teares | Vapor | |
| Fábrica Santa Francisca/Luiz de Queiroz | Constituição | 1874 (1876) | Inglaterra (Platt Brothers, Manchester) 50 teares | hidráulica | |
| Fábrica de Tecidos Carioba/ Antonio de Souza Queiroz, Guilherme Ralston e Augusto de Souza Queiroz | Campinas | 1875 |
Essas primeiras fábricas, se localizavam próximas aos centros de produção da matéria-prima e contaram com a colaboração dos cultivadores de algodão. Resultaram da aplicação de capital dos seus próprios fundadores e valeram-se da ampliação do consumo da população em franca expansão a partir de 1870 com a Grande Imigração. A operação dessas fábricas deve ter contado principalmente com a mão de obra feminina, pois, de acordo com dados de 1872, dentre os 10.256 operários paulistas, 9.514 eram mulheres que estavam empregadas nos estabelecimentos da indústria têxtil.
Foi nesse contexto que Luiz de Queiroz chega em Piracicaba (ainda denominada Constituição), para tomar posse da herança deixada por seu pai – a Fazenda Engenho D’Água, situada à margem esquerda do Rio Piracicaba, a altura do Salto do Rio, condição ideal para o intento do novo habitante: a constituição de uma fábrica de fiar e tecer algodão – Fábrica de Tecidos Santa Francisca – movida por força hidráulica. (002) Ainda que o emprego do vapor já fosse difundido na então Província de São Paulo, o aproveitamento das quedas d’água foi de suma importância para a instalação das primeiras fábricas de tecidos, que se proliferaram nas cidades do interior paulista. O maquinismo foi importado da Inglaterra (Platt Brother, Manchester), contava com 50 teares, operados por 70 operários e se destinava a fabricação de tecido grosso de algodão. Ao lado da tecelagem deu início a construção de sua residência, “um palacete em estilo parisiense que ele viria habitar após o matrimônio com Ermelinda Ottoni, filha do senador liberal e conselheiro do Império Cristiano Ottoni”, conforme escreve Marly Perecin.

Margem esquerda do rio Piracicaba, c. 1901–1918, local original do Engenho d’Água. Fotografia: Vienna de José Bidschovsky. Acervo Instituto Histórico e Geográfico de Piracicaba – IHGP.
Quando da inauguração em 1876, a Santa Francisca produzia tecidos de algodão grossos e entrefinos para sacos e roupas (gross e riscado) “de superior qualidade e de várias cores aproximando-se algumas delas dos tecidos que se costumam fazer na província de Minas Gerais”; atingia uma produção anual de 600 a 700 mil metros de tecidos e empregava 3 a 4 mil fardos de algodão em rama. Consumia toda a matéria-prima produzida no município de Piracicaba (Constituição), avaliada em 16 mil arrobas em 1976, insuficientes para a capacidade da fábrica, de modo que era complementada pela produção algodoeira de Sorocaba, Tietê, Tatuí e principalmente de Santa Bárbara D’Oeste. O produto era comercializado principalmente na província de São Paulo, mas parte da produção também cobria as praças comerciais do Rio de Janeiro e Paraná.
Apesar da presença da Santa Francisca e de alguns descaroçadores de algodão, Piracicaba não se torna um grande centro de produção algodoeira, ao contrário da vizinha cidade de Santa Bárbara d’Oeste, destino de imigrantes norte-americanos refugiados da guerra civil que ali se estabeleceram e deram grande incremento à cultura na região: portadores de experiência e introduzindo técnicas modernas, “fizeram das terras em torno do povoado um centro de observações e experiências para os lavradores de algodão”, aproveitando-se também das oportunidades oferecidas pelo mercado interno.
“um palacete em estilo parisiense que ele viria habitar após o matrimônio com Ermelinda Ottoni, filha do senador liberal e conselheiro do Império Cristiano Ottoni.”

O destino da Santa Francisca, porém seria cruzado por outros dois projetos que consumiriam a fortuna de Luiz de Queiroz: a Empresa Elétrica, criada para a iluminação da cidade, conforme concessão que obtivera da Câmara Municipal; e aquele que viria a ser o empreendimento mais ousado e ambicioso de Luiz de Queiroz: a construção de uma escola prática de agricultura, para o que adquirira e empenhara grandes somas na aquisição da Fazenda São João da Montanha em 1891. A implantação da Empresa Elétrica lhe trouxe grandes problemas, pois dependia da importação de todo o equipamento, de sorte que os custos de frete e câmbio lhe foram deveras desfavoráveis, causando-lhe enormes prejuízos.

Fábrica de Tecidos Arethusina. À esquerda, o pavilhão fabril; ao centro, os jardins; à direita, os escritórios, construídos por Luiz de Queiroz em 1876. Fotografia c. 1906–1911. Crédito fotográfico: Lehner & Taufler. Acervo Instituto Histórico e Geográfico de Piracicaba -IHGP.
Assim foi que 1893, “após vinte anos de lutas” Luiz de Queiróz entra com “seu contingente patrimonial” num total de Rs 1.345.000$000, referente à fábrica de tecidos ‘Santa Francisca’, com todos os seus maquinismos, tinturaria e caldeiraria, na formação da Companhia de Cultura de Tecidos de Algodão S. A., com sede no Rio de Janeiro e transferir residência para São Paulo.
Ao que tudo indica, a recuperação da Fábrica não foi bem sucedida, pois em 1897 a Companhia é dissolvida e a Fábrica Santa Francisca é adquirida pelo engenheiro Manoel Buarque de Macedo, que incorpora dois grandes benefícios a Santa Francisca: além da construção de casas para os trabalhadores, os novos proprietários agregam-lhe importante melhoramento: a Escola “Luiz de Queiroz”, com cursos diurno e noturno, destinados aos filhos de seus operários e pessoas interessadas.

Fábrica de Tecidos Arethusina, antiga Fábrica Santa Francisca, em sua conformação original, construída por Luiz de Queiroz em 1876., c. 1901–1918. José Bidschovsky. Photographia Vienna. Acervo: Instituto Histórico e Geográfico de Piracicaba –IHGP. [Photographia Vienna era o nome do estúdio do Bidschovsky].
Não sustenta o negócio por muito tempo, entretanto, pois no ano seguinte, enfrentando dificuldades financeiras, acaba por transferir a Fábrica e todos os seus benefícios ao Banco da República do Brasil, num montante de rs. 1.142:000$000.
Em 1902, nova sucessão, o Banco da República do Brasil a vendeu passou à Rodolpho da Nogueira da Rocha Miranda, que alterou a denominação do estabelecimento para Fábrica de Tecidos Arethusina, em homenagem a sua esposa, e em 1907, o casal inclui seu filho Luiz Rodolpho Miranda e esposa à sociedade administrativa da Fábrica, doando-lhes uma quarta parte do estabelecimento.
A fábrica passa então por um período de estabilidade, conforme se depreende a considerar os dados publicados na Gazeta de Piracicaba em 1912: o montante do capital da empresa era de 1.940:000$000, o número de operários nesse ano chega a 300. Com esse capital, a Arethusina figurava entre os 102 maiores empreendimentos industriais do Brasil naquele ano, cujo capital superava mil contos de reis (1,1% do total dos estabelecimentos. Considerando-se o pessoal ocupado, a Arethusina figurava entre os 163 maiores empreendimentos industriais do Brasil em 1912 (1,6% do total dos estabelecimentos industriais brasileiros naquele ano). Eram 300 operários, sendo 191 mulheres e 75 menores, distribuídos seis seções, a saber, fiação, preparação, tinturaria, sala de enfardagem, oficina mecânica e motores e caldeiras.
A história da fábrica de tecidos não se encerra aí: no mesmo ano de 1912, em mais uma transação de compra e venda, a Arethusina passou a denominar-se Sociedade Anonima Manufactora Piracicabana e será novamente vendida em 1918 a Boyes Irmãos e Cia; em 1924 essa sociedade foi desfeita, ficando a fábrica com os sócios Jaime S. Boyes e Alfred S. Boyes; e em 1927, definitivamente, a fábrica foi adquirida pela Cia Industrial e Agrícola Boyes, compreendendo as máquinas, usina elétrica, canal condutor de água para as turbinas e demais benfeitorias, mantendo-se como a derradeira denominação até o fim das atividades da empresa.
Referências bibliográficas
Canabrava, Alice P. O Algodão em São Paulo -1861-1875. 2ª ed. São Paulo: T.A. Queiroz, 1984.
Guerrini, Leandro. História de Piracicaba em Quadrinhos. Piracicaba: Instituto Histórico e Geográfico de Piracicaba – IHGP , 2009. 2º v.
Mendes Torres, Maria Celestina Teixeira. Aspectos da Evolução da Propriedade Rural em Piracicaba no Tempo do Império. Piracicaba: Academia Piracicabana de Letras, 1975.
Perecin, Marly Therezinha Germano. Os Passos do Saber: A Escola Agrícola Prática Luiz de Queiroz. São Paulo: EDUSP, 2004.
Terci, Eliana Tadeu. A cidade na Primeira República: imprensa política e poder em Piracicaba. IFCH/USP. Tese de doutorado, 1997.
Sobre a autora
Eliana Tadeu Terci
É graduada em Ciências Econômicas pela UNIMEP, Mestre em História pela PUC-SP e Doutora em História pela USP. É Professora Doutora do Departamento de Economia, Administração e Sociologia da ESALQ/USP.